ARRENDARÁ A VINHA A OUTROS VINHATEIROS – evangelho Mt 21,33-43
Há quem acha que o Evangelho seja uma doce água de rosas, um piedoso ensinamento inócuo que, afinal, só serve para enfeitar o que mais lhes convém. Essa visão equivocada, sem dúvida se distancia de qualquer preocupação exegética, contextual e atualizante, além de esquecer a secular interpretação, vivência e testemunho da Igreja, comunidade dos discípulos e discípulas de Jesus.
Este trecho de Mateus, como muitos outros, é chocante, arrasador, denunciando a sorte daquelas pessoas que só buscam o poder de dominar, humilhar, explorar os demais com a ousadia e sacanagem de querer falar em nome de Deus: a vinha sera arrendada a outros vinhateiros!
Temos aqui uma denúncia e uma profunda recusa daquelas autoridades do templo de Jerusalém, toca de ladrões (Mc 11,17; Lc 19,46), até o ponto em que estas mesmas autoridades decidem matar Jesus (Mc 11,18). Mas verdadeiros canalhas, tem medo da reação do povo. A verdade revela os planos das trevas.
É briga, briga declarada. Aqueles que se acham os destinatários das promessas antigas, banhadas no sangue dos profetas, são agora excluídos, porque não conhecem a conversão; pior, como sempre, só cuidam de seus interesses. Usam o nome de Deus para mascarar sua ganância e mania de exclusão. Afinal, acreditam que podem estar acima do Deus da Vida.
A vida continua, também nos dias de hoje, de um lado uma multidão gritando justiça diante de Deus e do outro, uns poucos que não prezam a igualdade de voz e vez, de direitos e deveres, cuja finalidade existencial é se safar dos demais, mentindo, armados de exércitos, bens, poder e meios informativos que apresentam governos fantoches como se fossem os santuários da democracia.
O que vejo hoje em dia, em nossa realidade e, sem medo de dizer, no mundo todo é a estúpida teoria e prática do acúmulo e da concentração nas mãos de poucos, quando, qualquer economista, de qualquer tendência, sabe muito bem que a economia só tem um caminho: estar aberta a todos. Quanto mais as pessoas tiverem poder aquisitivo, quanto mais se cria giro de negócios e bem-estar. Quanto mais educação e saúde, mais teremos povos capazes de se autodeterminarem sem a canalhice de assaltar os outros com todo tipo de guerra e sabotagem. As autoridades do templo de Jerusalém, achavam que pra sobreviver era suficiente fazer bons olhos aos romanos. Ficar escravos, dependentes, pagar os tributos; o importante era elas terem umas regalias e que o povo se lascasse! O império daquele tempo (Roma), como os impérios de todos os tempos, sabem muito bem que, dividindo as pessoas, é o meio melhor para dominá-las. E assim foi, pra Jerusalém e pro seu templo; infelizmente, morte de tantos inocentes, sacrificados no altar da canalhice das autoridades e seus puxa-saco.
Ainda há pessoas ingenuas (ou hipócritas) que acham o mundo divido em comunismo e anti-comunismo. O comunismo histórico se foi, está morto. Hoje domina o mercado; a coisa, as coisas dominam o ser humano, a elas se sacrificam povos inteiros, culturas, até a própria mãe terra. Para isso tudo presta, até o uso da religião, como naquele tempo, assim hoje.
Jesus pregou e praticou a partilha. Até os próprios discípulos diante das multidões famintas pensavam que a solução era o mercado; comprar comida; não tendo dinheiro que os famintos se lasquem. Jesus vai além, muito além de "vocês deem comida", ele pede aos seus: "vocês se façam comida, alimento para aqueles que tem fome de vida" (Mc 6,30-44). Tem pessoas que ao ouvirem isso, acham se trate de um slogan comunista; quando digo que é o Evangelho de Jesus aí elas veem com duas reações: se forem cristãos, ficam vermelhas de vergonha (ainda bem); se forem pseudo-cristãos, se enfurecem e tacham a gente com todo tipo de apelido. Por isso que a Vinha de Deus (= o Reino de Deus, a Igreja, todo Homem de Boa Vontade) será tirado dos mercenários, mesmo que se camuflem atrás de religião ou pseudopartidos políticos. O que espero nestes dias de eleições políticas em nosso país é que as pessoas procurem de fato propostas, projetos em prol do bem dos brasileiros, grande povo, sofrido, mas cheio de tanta esperança. Espero que se larguem briguinhas de parte, interesseiras e se procure esta Vida Plena que Jesus nos aponta na sua Boa Nova.
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
Contra a imbecilidade do atual anticomunismo
Contra a imbecilidade do atual anticomunismo
17/12/2013
Mauro Santayana é um dos jornalistas mais eruditos do jornalismo brasileiro. Sempre comprometido com causas humanitárias, contundente e dotado de um estilo de grande elegância. Somos colegas como colunistas do Jornal do Brasil-on line. Recentemente, no dia 17/12/2013, publicou um artigo sob o título HAMEUS PAPAM com o qual me identifiquei imediantamente. Sofro ataques imbecis de que sou comunista e marxista, como se para um teólogo com 50 anos de atividade, fosse uma banalidade fazer esta acusação. Sou cristão, teólogo e escritor. Marx nunca foi pai nem padrinho da Teologia da Libertação que ajudei a formular. O atual anticomunismo revela a anemia de espírito e a pobreza de pensamento que estão prevalecendo como disfarce para esconder o desastre que significa a economia de mercado, altamente predadora da natureza e agressora de todo tipo de direitos humanos e agora numa crise da qual não sabem como sair. Há tempos o Zürcher Zeitung, o maior jornal suiço e pouco depois o Times diziam que o autor mais lido hoje é Marx. Não só por estudiosos, mas por banqueiros e financistas conscientes que querem saber por que seu sistema foi a falência e por que tem tantas dificuldades em sair dele, se é que encontram uma saída que não signifique mais sacrificio para a natureza (injustiça ecológica) e para a humanidade já sofredora (injustiça social). Hoje mais e mais se percebe que este sistema é anti-vida, anti-democracia e anti-Terra. Se não cuidarmos poderá nos levar a um abismo fatal. É uma reflexão que faço contra meus acusadores gratuitos e faltos de razão. Penso às vezes que Einstein tinha razão quando disse:”Existem dois infinitos:um do universo e outro dos estultos; do primeiro tenho dúvidas, do segundo, absoluta certeza”. Estimo que muitos dos anticomunistas atuais se inscrevem nesse segundo infinito. É fácil serrar árvore caída e convardia chutar cachorro morto. Pensemos, antes, no presente com sentido de responsabilidade, unidos face a um feixe de crises que nos poderá levar a uma tragédia ecológico-social. Como fazer tudo para evitá-la e garantir um futuro comum para todos, inclusive para a nossa civilização e para nossa Casa Comum. Essa é a questão maior a ser pensada e sobre ela inaugurar práticas salvadoras e não distrair-se com discutir um comunismo inexistente, morto e sepultado. LBoff
*************
Habemus Papam
Acusado por um conservador norte-americano de ser marxista, Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, negou sê-lo, mas disse que não se sentia ofendido, por ter conhecido ao longo de sua vida muitos marxistas que eram boas pessoas.
A declaração do papa, evitando atacar ou demonizar os marxistas, e atribuindo-lhes a condição de comuns mortais, com direito a ter sua visão de mundo e a defendê-la, é extremamente importante, no momento que estamos vivendo agora.
A ascensão irracional do anticomunismo mais obtuso e retrógrado, em todo o mundo — no Brasil, particularmente, está ficando chique ser de extrema direita — baseia-se em manipulação canalha, com que se tenta, por todos os meios, inverter e distorcer a história, a ponto de se estar criando uma absurda realidade paralela.
Estabelecem-se, financiados com dinheiro da direita fundamentalista, “museus do comunismo”; surgem por todo mundo, como nos piores tempos da Guerra Fria, redes de organizações anticomunistas, com a desculpa de se defender a democracia; atribuem-se, alucinadamente, de forma absolutamente fantasiosa, 100 milhões de mortos ao comunismo.
Busca-se associar, até do ponto de vista iconográfico, o marxismo ao nacional-socialismo, quando, se não fossem a Batalha de Stalingrado, em que os alemães e seus aliados perderam 850 mil homens, e a Batalha de Berlim, vencidas pelas tropas do Exército Vermelho — que cercaram e ocuparam a capital alemã e obrigaram Hitler a se matar, como um rato, em seu covil — a Alemanha nazista teria tido tempo de desenvolver sua própria bomba atômica e não teria sido derrotada.
Quem compara o socialismo ao nazismo, por uma questão de semântica, se esquece de que, sem a heroica resistência, o complexo industrial-militar, e o sacrifício dos povos da União Soviética — que perdeu na Segunda Guerra Mundial 30 milhões de habitantes — boa parte dos anticomunistas de hoje, incluídos católicos não arianos e sionistas, teriam virado sabão nas câmaras de gás e nos fornos crematórios de Auschwitz, Birkenau e outros campos de extermínio.
Espalha-se, na internet — e um monte de beócios, uns por ingenuidade, outros por falta de caráter mesmo, ajudam a divulgar isso — que o Golpe Militar de 1964 — apoiado e financiado por uma nação estrangeira, os Estados Unidos — foi uma contrarrevolução preventiva. O país era governado por um rico proprietário rural, João Goulart, que nunca foi comunista. Vivia-se em plena democracia, com imprensa livre e todas as garantias do Estado de Direito, e o povo preparava-se para reeleger Juscelino Kubitscheck presidente da República em 1965.
1964 foi uma aliança de oportunistas. Civis que há anos almejavam chegar à Presidência da República e não tinham votos para isso, segmentos conservadores que estavam alijados dos negócios do governo e oficiais — não todos, graças a Deus — golpistas que odiavam a democracia e não admitiam viver em um país livre.
Em um mundo em que há nações, como o Brasil, em que padres fascistas pregam abertamente, na internet e fora dela, o culto ao ódio, e a mentira da excomunhão automática de comunistas, as declarações do papa Francisco, lembrando que os marxistas são pessoas normais, como quaisquer outras — e não são os monstros apresentados pela extrema-direita fundamentalista e revisionista sob a farsa do “marxismo cultural” — representam um apelo à razão e um alento.
Depois de anos dominada pelo conservadorismo, podemos dizer, pelo menos até agora, que Habemus Papam, com a clareza da fumaça branca saindo, na Praça de São Pedro, em dia de conclave, das veneráveis chaminés do Vaticano.
Um Papa maiúsculo, preparado para fortalecer a Igreja, com o equilíbrio e o exemplo do Evangelho, e a inteligência, o sorriso, a determinação e a energia de um Pastor que merece ser amado e admirado pelo seu rebanho.
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Habemus Papam
Acusado por um conservador norte-americano de ser marxista, Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, negou sê-lo, mas disse que não se sentia ofendido, por ter conhecido ao longo de sua vida muitos marxistas que eram boas pessoas.
A declaração do papa, evitando atacar ou demonizar os marxistas, e atribuindo-lhes a condição de comuns mortais, com direito a ter sua visão de mundo e a defendê-la, é extremamente importante, no momento que estamos vivendo agora.
A ascensão irracional do anticomunismo mais obtuso e retrógrado, em todo o mundo — no Brasil, particularmente, está ficando chique ser de extrema direita — baseia-se em manipulação canalha, com que se tenta, por todos os meios, inverter e distorcer a história, a ponto de se estar criando uma absurda realidade paralela.
Estabelecem-se, financiados com dinheiro da direita fundamentalista, “museus do comunismo”; surgem por todo mundo, como nos piores tempos da Guerra Fria, redes de organizações anticomunistas, com a desculpa de se defender a democracia; atribuem-se, alucinadamente, de forma absolutamente fantasiosa, 100 milhões de mortos ao comunismo.
Busca-se associar, até do ponto de vista iconográfico, o marxismo ao nacional-socialismo, quando, se não fossem a Batalha de Stalingrado, em que os alemães e seus aliados perderam 850 mil homens, e a Batalha de Berlim, vencidas pelas tropas do Exército Vermelho — que cercaram e ocuparam a capital alemã e obrigaram Hitler a se matar, como um rato, em seu covil — a Alemanha nazista teria tido tempo de desenvolver sua própria bomba atômica e não teria sido derrotada.
Quem compara o socialismo ao nazismo, por uma questão de semântica, se esquece de que, sem a heroica resistência, o complexo industrial-militar, e o sacrifício dos povos da União Soviética — que perdeu na Segunda Guerra Mundial 30 milhões de habitantes — boa parte dos anticomunistas de hoje, incluídos católicos não arianos e sionistas, teriam virado sabão nas câmaras de gás e nos fornos crematórios de Auschwitz, Birkenau e outros campos de extermínio.
Espalha-se, na internet — e um monte de beócios, uns por ingenuidade, outros por falta de caráter mesmo, ajudam a divulgar isso — que o Golpe Militar de 1964 — apoiado e financiado por uma nação estrangeira, os Estados Unidos — foi uma contrarrevolução preventiva. O país era governado por um rico proprietário rural, João Goulart, que nunca foi comunista. Vivia-se em plena democracia, com imprensa livre e todas as garantias do Estado de Direito, e o povo preparava-se para reeleger Juscelino Kubitscheck presidente da República em 1965.
1964 foi uma aliança de oportunistas. Civis que há anos almejavam chegar à Presidência da República e não tinham votos para isso, segmentos conservadores que estavam alijados dos negócios do governo e oficiais — não todos, graças a Deus — golpistas que odiavam a democracia e não admitiam viver em um país livre.
Em um mundo em que há nações, como o Brasil, em que padres fascistas pregam abertamente, na internet e fora dela, o culto ao ódio, e a mentira da excomunhão automática de comunistas, as declarações do papa Francisco, lembrando que os marxistas são pessoas normais, como quaisquer outras — e não são os monstros apresentados pela extrema-direita fundamentalista e revisionista sob a farsa do “marxismo cultural” — representam um apelo à razão e um alento.
Depois de anos dominada pelo conservadorismo, podemos dizer, pelo menos até agora, que Habemus Papam, com a clareza da fumaça branca saindo, na Praça de São Pedro, em dia de conclave, das veneráveis chaminés do Vaticano.
Um Papa maiúsculo, preparado para fortalecer a Igreja, com o equilíbrio e o exemplo do Evangelho, e a inteligência, o sorriso, a determinação e a energia de um Pastor que merece ser amado e admirado pelo seu rebanho.
Votar em Dilma Roussef para continuar a invenção do novo Brasil
Votar em Dilma Roussef para continuar a invenção do novo Brasil
01/10/2014
Tempos atrás publiquei um artigo com o título “Contra as tramóias da direita: sustentar a Dilma Rousseff” Agora em tempos de campanha presidencial vejo como ele mantem ainda atualidade. Refaço o texto no contexto atual. É notório que a direita brasileira especialmente aquela articulação de forças elitistas que sempre ocuparam o poder de Estado e o trataram como propriedade privada (patrimonialismo), apoiadas pela midia privada e familiar, está se aproveitando da crise que é mundial e não apenas nacional (e temos a vantagem de manter um mínimo de crescimento e o emprego dos trabalhadores, coisa que não acontece nem na Europa e nem nos USA) para fazer sangrar a Presidenta Dilma e desmoralizar o PT e assim criar uma atmosfera que lhes permite voltar ao lugar que por via democrática perderam.
Celso Furtado num livro pouco lido A construção interrompida (1993) escreveu com acerto:”O tempo histórico se acelera e a contagem desse tempo se faz contra nós. Trata-se de saber se temos um futuro como nação que conta na construção do devenir humano. Ou se prevalecerão as forças que se empenham em interromper o nosso processo histórico de formação de um Estado-nação” (Paz e Terra, Rio 1993, 35).
Aqui reside a verdadeira questão: queremos prolongar a dependência daquelas forças nacionais e mundiais que sempre nos mantiverem alinhados e sócios menores de seu projeto ou queremos completar a invenção do Brasil como nação soberana que tem muito que contribuir para atual crise ecológico-social do mundo.
Se por um lado não podemos nos privar de algumas críticas ao governo do PT, mas críticas construtivas, por outro, seria faltar à verdade se não reconhecêssemos os avanços significativos sob os governos do Partido dos Trabalhadores. A inclusão social realizada e as políticas sociais benéficas para aqueles milhões que sempre estiveram à margem, possuem uma magnitude histórica cujo significado ainda não acabamos de avaliar, especialmente se nos confrontarmos com as fases históricas anteriores, hegemonizadas pelas elites tradicionais que sempre detiveram o poder de Estado.
Surgiu um estranho ódio contra o PT em muitos âmbitos da sociedade: suspeito que esse ódio é porque as políticas públicas permitiram aos pobres usarem o avião e visitarem seus parentes no nordeste, que conseguiram comprar seu carrinho e entrar num shopping moderno. O lugar deles, dizem, não é no avião mas permanecer lá na periferia, pois esse é seu lugar. Mas eles foram integrados na sociedade e em seus benefícios.
Devemos aproveitrar as oportunidades que os países centrais em profunda crise nos propiciam: reafirmar nossa autonomia e garantindo nosso futuro autônomo mas relacionado com a totalidade do mundo ou desperdiçá-las e vivermos atrelados ao destino sempre decidido por eles que nos querem condenar a sermos apenas os fornecedores dos produtos in natura que lhes falta e assim voltam a nos recolonizar.
Não podemos aceitar esta estranha divisão internacional do trabalho. Temos que retomar o sonho de alguns de nossos melhores analistas do quilate de Darcy Ribeirp e de Celso Furtado entre outros que propuseram uma reinvenção ou refundacão do Brasil sobre bases nossas, gestadas pelo nosso ensaio civilizatório tão enaltecido mundialmente.
Este é o desafio lançado aos candidatos à mais alta instância de poder no país. Não vejo figura melhor para seguir nesta recontrução a partir de baixo, com uma democracia representativa e participativa, com os seus conselhos e movimentos populares opinando e ajudando a formular caminhos que nos levem para frente e para o alto do que a atual Presidenta Dilma.
A situação é urgente pois, como advertia, pesaroso, Celso Furtado: “tudo aponta para a inviabilização do país como projeto nacional” (op.cit. 35). Nós não queremos aceitar como fatal esta severa advertência. Não devemos reconhecer as derrotas sem antes dar as batalhas como nos ensinava Dom Quixote em sua gaia sabedoria.
Essa batalha será decidida dia 5 de outubro. Que os bons espíritos guiem os rumos de nosso país.
http://leonardoboff.wordpress.com/2014/10/01/votar-em-dilma-roussef-para-continuar-a-invencao-do-novo-brasil/
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
Una mistica di fedeltà creativa
I nuovi orizzonti della VC
in
America Latina
UNA MISTICA DI FEDELTÀ CREATIVA
In AL sta
nascendo una VC più umile, più centrata in Dio, più missionaria, più
semplice, mossa dallo Spirito e dai suoi carismi, con nuove forme di comunità
aperte ai laici; una VC che scuote per le piccole storie a cui dà origine,
per la bellezza dei volti compassionevoli, gioiosi, e il cuore rivolto a coloro
che soffrono.
La vita consacrata in
America latina è alla ricerca di nuove idee. Non si rassegna a diventare un fossile. Vuole essere un organismo vivo e fecondo. Non è solo un auspicio, ma
l'orizzonte delineato dall'Assemblea generale della CLAR del giugno a Quito,
nel contesto di un Piano globale progettato per i prossimi anni. Lo
slogan di quella assemblea, i cui risultati furono poi presentati anche al
papa Francesco, era: "Ascoltiamo Dio dove la vita grida". (cf. Testimoni
11/2013). In America latina la VC, sulla spinta delle idee formulate in
questo Piano globale, sta vivendo un processo di rivitalizzazione, si
potrebbe dire, di "rifondazione", il cui grembo di gestazione è la
vita del popolo. È in questo ambito che essa nutre desideri, ideali, sogni che
rafforzano la sua volontà di essere segno. È
interessante ciò che scrive a questo riguardo Carlos Del Valle, svd, nel
quaderno della rivista cilena di VC Testimonio di novembre-dicembre
2013. La vita consacrata vuole tornare ad essere segno, mostrando, di fronte al
secolarismo, all'indifferenza, alla superficialità, il desiderio di Dio insito
nel profondo del cuore di tanti uomini e donne; nel proporsi come esperienza
di vita fraterna, di fronte all'individualismo e alla solitudine, e come
strumento per costruire comunione. Inoltre, di fronte al consumismo, vuole
mostrarsi come espressione di un anelito di semplicità e libertà interiore,
di austerità di vita, e davanti alla smania del potere e del dominio, come
espressione di un desiderio di dedizione, di servizio umile e di una gratuità
del tutto aliena dal prestigio.
La ricerca di una vita
mistica
Del Valle descrive le
vie, e di conseguenza le scelte, che dovranno caratterizzare il rinnovamento
della vita consacrata nel continente. La prima che indica è quella della
mistica. Il secolo XXI, scrive, o
sarà mistico o non sarà umano. La mistica qui è intesa come
riscoperta del senso profondo della vita, come apertura all'orizzonte di Dio.
«Viviamo - scrive - di
cose che ci distraggono, di urgenze che ci anestetizzano, di compiti che ci
soddisfano e di sicurezze che ci tranquillizzano ... vegetando tra
l'indifferenza e la routine, istallati nelle nostre fedeltà. Ma a che
cosa siamo fedeli? Al passato o a ciò che Dio vuole da noi? Per essere fedeli
al passato bastano le pratiche e le consuetudini. Per essere fedeli all'oggi
è necessaria la creatività. La prima virtù del mistico è di essere creativo,
non fedele alla routine. Noi vogliamo collocarci come uomini e donne di
Dio in questa società. Ma ... come Elia (1Re 19, 1-14) ci rifugiamo
nelle nostre grotte: tradizioni, routine, le nostre verità, costumi e
sicurezze. L'angelo (il popolo, la società) ti dice: «esci dalle tue grotte,
dalle tue consuetudini, dalle tue convinzioni, dalle tue verità imparate ... e
mettiti davanti ai bisogni della gente». Come Gesù che nella missione si
orienta non tanto verso ciò che ha imparato, ma verso i bisogni delle persone
che incontra.
Si sente un vento
impetuoso, il terremoto, il fuoco ... il nostro attivismo, il protagonismo,
tutto ciò che ci fa ritenere importanti e ci dà prestigio, ciò che ci induce
ad essere funzionari del sacro e non testimoni di Gesù. Facciamo molte cose,
fino a pensare che la VC acquisti efficacia lavorativa, eccellenza
professionale ... Ma anche "eccellenza evangelica?" La domanda va
in un'altra direzione. Trasmettiamo molto vangelo nelle molte cose che
facciamo?
Le nostre istituzioni,
il significato sociale di cui godiamo, la guida morale che esercitiamo, il
personaggio in cui mi rifugio, l'essere élite sacra che mi ·induce a
ritenermi diverso ... Tutto quello che allontana dalla vita di coloro che hanno
poco, sanno poco e possono poco. Il potere, il clericalismo, gli abusi nella
Chiesa, le nostre verità escludenti guardano dall'alto i laici, ai diversi
... Qui non c'è il Signore.
Una brezza soave ...
Nella vita religiosa del continente sta nascendo qualcosa di nuovo: un
linguaggio di coerenza, cose fatte con amore, nutrite di preghiera, un
linguaggio che vola alto. Ansia di spiritualità, coltivazione della dimensione
contemplativa, interesse per l'inserimento tra il popolo, al servizio degli
ultimi. Lo Spirito sta risvegliando la grazia della missione, una missione come
dialogo. Si sta profilando una VC più umile, di qualità spirituale, più centrata
in Dio, più missionaria, più semplice dal punto di vista istituzionale, mossa
dallo Spirito e dai suoi carismi, con nuove forme di comunità aperte ai laici,
una VC che scuote per le piccole storie a cui dà origine, per la bellezza dei
volti compassionevoli, gioiosi, con il cuore rivolto a coloro che soffrono.
Si respira una
crescente ansia di cambiamento. Nei messaggi e nelle assemblee la consegna
basilare è:
Vogliamo un'altra cosa.
Stanchi
della mancanza di onestà, di trasparenza nelle diverse sfere pubbliche e
nelle sfere segrete personali. La nostra VC possiede una profonda carica di
buona volontà, di sete di onestà e coerenza, di fame di vita, di sete di Dio.
Tanti religiosi/e ogni giorno gridano il vangelo con la vita e dicono che lo
spazio della Chiesa e della VC nella società non deve essere il potere.
Vogliamo vivere come
discepoli-fratelli e missionari-testimoni. Se un missionario non è testimone,
è un autoinganno. Uno può spostarsi da un continente all'altro, ma se non è
testimone di Cristo, sarà in missione come chi è in un safari. Se non siamo
radicati nell'esperienza di Dio, non avremo niente da dire ai nostri contemporanei.
Ci sentiremo irrilevanti, impotenti a rispondere alle sfide che la società pone
oggi alla Chiesa. La domanda fondamentale è: abbiamo l'energia spirituale
necessaria per far fronte alle sfide che oggi ci pone la società?
Con il Concilio abbiamo
intrapreso il rinnovamento della VC cercando l'efficacia apostolica. Oggi lo
facciamo a partire da presupposti spirituali, entrando più nella logica del
dono che in quella dell'eroismo personale. La vita, più che di salvatori, ha
bisogno di innamorati. Il problema nella vita consacrata è quello della spiritualità,
dell'avere o no esperienza di Dio. È la risposta alla crisi delle persone e
alla crisi dell'istituzione. Il peccato ... l'anemia spirituale. Quando si
perde la passione per Gesù e il suo regno, ci resta il rifugio nelle pratiche
devozionali. Da qui una vita light: in preghiere formali e di routine,
una vita comunitaria che si riduce a vivere e a lasciar vivere, la missione
come un insieme di compiti, gusti e a termine ... Quando ci si attacca il virus dell'anemia spirituale diventiamo
degli otri vecchi, senza creatività. Il vino nuovo della testimonianza diventa
aceto. E vi mettiamo i limiti della categoria che paralizza la speranza».
L’OPZIONE
PER GLI ESCLUSI
La seconda linea: il
secolo XXI o opterà per gli esclusi o non sarà cristiano. Come
nutrire una missione carismatica e profetica?
«La crisi di identità -
sottolinea Del Valle - deriva sempre da una debole esperienza di Dio e da un
disorientamento nella missione. Che identità stiamo consolidando oggi? Una
identità corporativa, alimentata a partire da una comunità di missione a servizio
dei feriti dalla violenza della storia, ai margini del benessere?
Noi religiosi/e siamo
presi da tante cose e a volte lasciamo ciò che ci riguarda. Con un duplice
pericolo: diventiamo funzionari del sacro, o specialisti in cose generiche,
con una identità light. È più comodo lavorare in progetti pastorali già
esistenti che inaugurare nuove presenze missionarie di frontiera. Per il primo
aspetto, basta la capacità di gestione. Per il secondo, si richiede creatività
e coraggio. Se saremo creativi e coraggiosi continueremo a dare un nome alle
realtà della nostra vita e missione. Continueremo a definirle e a
qualificarle, dando un orientamento evangelico e un significato nella Chiesa e
nella società.
Tanti elementi
assumeranno un nome nuovo e un orientamento evangelico e un significato nuovo
nella Chiesa e nella società. A titolo di esempio: vita consacrata ... più vita
e più consacrata, volontà di Dio ... relazioni fraterne, la mia congregazione
.... allargare la tenda ai laici, i miei fratelli e le mie sorelle ... ri-affascinati
della loro vocazione. Religioso, religiosa ... volontario, volontaria a tempo
pieno. Progetto di vita e di missione ... gli altri, la vita di coloro che
soffrono. Sorelle/fratelli, sacerdoti ... apprendisti come discepoli-fratelli.
Spiritualità ... di donazione, di incontro. Comunità .... dalla porte aperte,
interculturale. Religiosi/e ... con energia spirituale, formati in profondità.
Missionari/e ... testimoni, non funzionari. Missione ... carismatica e
profetica. Sfide della realtà .... volontà di Dio scritta nella vita. Luogo dei
religiosi/e ... il deserto, la periferia, la frontiera.
Così cambierà il clima
della Chiesa e verso la Chiesa: attraverso il servizio e la donazione, passando
dal clericale-gerarchico al fraterno-discepolare. Nella dedizione troviamo la
nostra identità religiosa. Ciò che oggi convince da parte di qualcuno non è la
sua parola, non sono le sue opere, la sua predicazione o gestione, ma la sua
vita dedicata agli altri; farsi carico, incaricarsi e caricarsi di ciò che
avviene e pesa negli altri.
La nostra identità, il
carisma, la spiritualità li scopriremo non solo rovistando nella tradizione
della nostra congregazione. Li troveremo anche nella missione carismatica e
profetica che incarniamo. Il sale e il lievito esprimono ciò che sono e lo
scopo a cui servono quando si mescolano, quando si perdono e si consumano nel
dare sapore e nel far fermentare la massa del pane. Il significato della nostra
vocazione ... è cercare Dio al di là dell'ambito del sacro, nelle frontiere
dove vivono coloro che hanno tutto contro, in luoghi dove la vita e
l'esclusione giungono ad essere quasi sinonimi. Ciò che importa è la sofferenza
delle persone. L'amore cristiano si manifesta quando il suo mondo si concentra
completamente nel dolore del debole, cercando di fare in modo che tutti gli
esseri viventi siano liberi dal dolore. La vita e l'amore si diffondono dove ci
sono religiose/i che sono dono nel cuore degli ambienti emarginati. Le comunità
di periferia costituiscono il contrassegno di una VC mistico-profetica
latinoamericana. Un servizio invitante ... che la caratterizza. La VC è tornata
alla sua terra di origine. L'incontro con il povero è il territorio della VC
per eccellenza. Il tribunale dei poveri giudica la nostra missione. È facile
incontrare l'escluso, la cosa difficile è continuare l'incontro, tradurlo in
punto di orientamento della propria vita e missione. Facciamo della missione
profetica una convinzione, una persuasione, più che un'idea. Le idee si
pensano. Nelle convinzioni si vive. La spiritualità di chi vive nelle sue
convinzioni è la nostra forza. Sempre guardando verso l'alto ma dal basso.
Perché abbiamo il cuore accanto agli esclusi. Con essi e a partire da essi si
vive il vangelo. Il nostro compito ... sentirci e sederci con la Parola di Dio
accanto ai poveri per alimentare la consacrazione».
Una linea ecumenica e interculturale
La terza linea indicata
da Del Valle:
Il secolo XXI cristiano
o sarà ecumenico, interculturale o non sarà ecclesiale.
«Un carisma vive nella
misura in cui lo si rigenera. Se vogliamo essere fedeli al carisma dei
fondatori e delle fondatrici, bisogna cambiare la vita nei nostri istituti,
cambiando noi la nostra vita. Chiamati alla fedeltà creativa: fedeli alle
radici e fedeli al nuovo per non adagiarci nel passato, soffocando lo Spirito a
forza di routine. Guardare avanti, impegnandoci per il futuro, lasciandoci
toccare dall'impulso del nuovo. Dio si manifesta negli avvenimenti prima che
nella Parola. Il Dio biblico è il Dio della vita, della storia. Molte cose che
oggi definiamo come Parola di Dio, Israele le imparò dai popoli e dalle
religioni vicine. Le ricevette da Dio attraverso di essi. Il nostro mondo è più
plurale ... Il presente con futuro della vita consacrata passa oggi attraverso
il profetismo della interculturalità.
Per essere costruttori
e testimoni del carisma della VC nel sec. XXI bisogna intraprendere il cammino
del dialogo interculturale. Costa passare dall'io al tu culturalmente diverso e
più ancora al noi della interculturalità. Viviamo con una serie completa di
relazioni e amicizie. Apriamo la porta e facciamo accomodare alla nostra mensa
(tempo, amicizia, beni, interesse) coloro che scacciano i demoni essendo dei
nostri. Ci minaccia una grettezza di mentalità, di relazioni ed esperienze
chiuse nella nostra cultura; ci riduce, ci rende ripetitivi, chiusi nelle
consuetudini, incapaci di aprirci a qualcosa di nuovo. Ci fa sentire insicuri
il fatto di allargare la tenda delle nostre relazioni e lasciare che entri
gente di confine, forse portatrice di modifiche all'insieme del nostro modo di
vivere. Quando entra gente diversa, questa smuove le sicurezze, e non ci
lascia installarci né essere incoerenti; ci fa abbreviare la distanza tra ciò
che siamo e quello che diciamo. È come il sale sulla ferita, brucia ma risana,
non ci lascia marcire nella mediocrità.
La vita religiosa sarà significativa oggi se
assumerà le differenze culturali delle persone e dei gruppi nella vita e nella
missione. Le vie del profetismo passano attraverso l'impegno a gettare ponti
e aprire strade di andata e ritorno per creare una civiltà di dialogo e
inclusione. Il monologo ci rende coscienti di noi stessi; il dialogo ci apre
alla realtà e ci cambia in essa e con essa. L'incontro interculturale è fonte
di fecondo apprendistato. La persona diversa mi arricchisce, mi aiuta a
passare dall'indifferenza al dialogo per incontrarci. Mi aiuta a convivere,
non a competere; ad essere umile perché come esseri umani abbiamo bisogno di
umiltà per convivere, non di prepotenza per competere. Pensiamo a che cosa
potranno essere le nostre congregazioni se si lasceranno toccare il cuore da
altre culture non occidentali ...
L'attenzione alla
diversità farà emergere una nuova spiritualità, un'autentica comunione. Sarà
un fattore di rinnovamento e di creatività, di trasformazione che indurrà a
passare dal centralismo al pluralismo, da uno stile dogmatico a uno stile
dialogico, dall'eccesso di identità e autosufficienza all'autocritica e all'innovazione.
Obbligherà a rompere abitudini e atteggiamenti di routine comodi,
paralizzanti e ad abbandonare la rigidità di certe tradizioni vuote e
insignificanti. L'interculturalità nelle comunità oggi richiede di dare vita
al vangelo e credibilità alla vita religiosa”.
(Tratto dalla rivista
TESTIMONI, n° 4 di aprile 2014)
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